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Os Nambikuára - Esta tribo não é mais
ameaçada de extinção
Por Menno e Barbara Kroeker
"Todos os membros da minha família tinham morrido. Ao redor das
cinzas frias das fogueiras abandonadas nas choupanas da aldeia encontravam-se corpos
mortos. Eu não tinha mais energia para enterrar ninguém. Fui a única sobrevivente e
pensei que também fosse morrer." Assim falou uma anciã nambikuára, limpando as
lágrimas.
"Na hora do entardecer, arrastei-me até o córrego e deixei que a água fresquinha
me acalmasse o calor da pele do rosto e da boca seca. Lá dentro de mim senti uma
urgência. Eu deveria contar aos demais parentes sobre o mal que passou por aqui.
Descansei um pouco durante o fresco da noite e, bem antes do sol raiar, iniciei a minha
viagem. Não tinha forças para caminhar a pé, por isso saí engatinhando. Nem sei quanto
tempo andei. Finalmente cheguei no riacho ao lado da aldeia vizinha. Senti esperança no
coração. Aqui eu iria encontrar auxílio, alento e o poder curativo do pajé. Mas, cadê
a fumaça das fogueiras? Arrastando-me, sangrando de mãos e joelhos, aproximei-me mais e
vi a mesma cena horrorosa - Todos mortos! Não.... Ouvi um som bem fraquinho vindo de
alguma parte. Lá estavam eles, moribundos: meu tio e sua filha. De alguma maneira ou
outra, nós três conseguimos sobreviver. Após recuperar um pouco de energia, fomos até
a próxima aldeia. Lá encontramos uns poucos sobreviventes. Formamos um grupo e fomos
andando a todas as aldeias, procurando outros sobreviventes. O mal que queima e que deixa
pintas vermelhas nos tinha destruído. Ele consumiu nossa gente; pouquíssimos de nós
ficamos."
Sarampo. Acabou de reduzir a outrora poderosa nação de mais de 10.000 nambikuára a um
pequeno grupo de uns 600 sobreviventes. Os poucos sobreviventes nambikuára se esconderam
e ficavam à espreita. Qual fora a causa de tamanho mal nesse ano de 1945?
Uns anos antes, soldados e exploradores tinham penetrado a Bacia
Amazônica para construir uma rede telegráfica. Tais avanços tinham aberto a porta para
doenças antes desconhecidas. O progresso trouxera a devastação.Uma agência
telegráfica com umas poucas choupanas ao redor foi construida perto de algumas das
aldeias. Os nambikuára iniciaram contatos amistosos com os residentes do centro
telegráfico, mas a barreira lingüística dificultava a comunicação. E nessa altura
surgiu o mal que queima. Certo dia um grupo de nambikuára levou uma criança muito doente
ao posto telegráfico. Sua única chance de vida seria uma das poucas injeções
disponíveis no posto. Mas foi tarde demais. A criança indígena morreu. Alguns dias
depois, os nambikára massacraram vários habitantes do posto telegráfico. Será que
acharam que a injeção fosse veneno? Sentiram-se amaldiçoados? A morte da criança
exigia vingança? Ninguém sabe.
Mais de uma década depois, em 1959, uma equipe da Sociedade Internacional de
Lingüística passou a atuar na área nambikuára. Os lingüístas Ivan Lowe e Menno
Kroeker puderam analisar a complexa estrutura gramatical e desenvolver uma ortografia
adequada aos aspectos fonológicos da língua, inclusive o seu sistema tonal. A habilidade
destes lingüístas de se comunicarem na língua indígena contribuiu para reduzir as
suspeitas e tensões existentes entre os nambikuára e os não-indígenas. O fato de Menno
caminhar umas duas horas diariamente para cuidar de uma doente em outra aldeia
conscientizou o povo da sua dedicação ao bem-estar deles. Quando a doente se recuperou
parcialmente, o seu marido a levava à aldeia onde morava o Menno para que pudesse
continuar os tratamentos. Os nambikuára começaram a confiar neste homem que já falava
fluentemente a língua deles.
Após o casamento de Menno, ele e sua esposa, Bárbara, conviveram com o nambikuára e
iniciaram um programa de alfabetização para que estes pudessem aprender a ler e escrever
sua língua materna. Os Kroekers ensinaram também os números e a matemática, e se
admiraram da boa disposição dos nambikuára para a aprendizagem. Iniciou-se uma rede de
comunicação entre as aldeias. Bárbara treinou pessoas de diversas aldeias para serem
alfabetizadores, dando continuidade às aulas de alfabetização durante a ausência do
casal Kroeker.
Os programas pedagógicos têm proporcionado aos nambikuára oportunidade de contribuirem
à sua própria cultura e ao mundo externo. Uma parte integral do programa de
alfabetização é a preservação de mitos e lendas da comunidade. Quando os nambikuára
moravam nas tradicionais aldeias circulares, em casinhas de sapé, os contadores de
histórias falavam suficientemente alto do centro da aldeia para serem ouvidos por todos
os habitantes deitados no chão ao redor da fogueira nas suas respectivas residências.
Mas quando as casas de madeira passaram a substituir as choupanas tradicionais de sapé, a
recitação das histórias não era mais audível em toda a aldeia. Menno e Bárbara
gravaram e transcreveram histórias em livrinhos, garantindo assim a sobrevivência e
transmissão da tradição nambikuára através da leitura. Os Kroekers animaram as
pessoas da comunidade a se tornarem escritores e desenhistas. A publicação de um
dicionário bilíngüe foi motivo de grande orgulho comunitário, pois os nambikuára
puderam assim ver a sua própria língua ombreando com o português.
O recenseamento da maioria das principais aldeias nambikuára
realizado pelos Kroekers e publicado em 1995 comprova que a população atual está
totalmente recuperada dos estragos causados pela epidemia de sarampo. Em 1988 a população
registrada foi 900 e em 1999 chegou a 1000 pessoas. Os membros da comunidade gostam de ler
a informação fatual e as estatísticas de parentesco contidas no Livro do Censo. Esta
informação tem resultado bem útil na vida deles, pois hoje em dia precisam de
documentos como a carteira de identidade.
O governo brasileiro tem construído clínicas e treinado pessoal médico. Tem construído
escolas e promovido programas de alfabetização e um sistema de educação bilíngüe;
está se esforçando no sentido de contratar professores indígenas. Estes fatores têm
contribuido para a consciência de orgulho e auto-determinação da nação nambikuára.
http://www.sil.org/americas/brasil/indgrps/portnbst.htm
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