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Alfabetização e educação escolar entre os grupos indígenas do Brasil

   Breve Sumário dos Princípios Pedagógicos da SIL

Conceitos fundamentais

A filosofia educacional da SIL é centrada no desenvolvimento integral da pessoa. O trabalho que a SIL desenvolve, no campo da lingüística e educação intercultural, está orientado para a mais rigorosa preservação da tradição oral, dos caracteres sociais, culturais, econômicos e espirituais de cada etnia indígena. A formulação dos fundamentos daqueles trabalhos implica em estudos prévios, em colaboração com os povos indígenas. Estes incluem:

Quando a SIL começou seu trabalho no Brasil, há 50 anos, a maioria das situações eram predominantemente monolíngües. Desde então, os lingüistas da SIL trabalharam com a alfabetização, inicialmente, dos adultos, na língua materna, em rigorosa obediência à estrutura social e aos padrões de autoridade tradicionais do grupo. Embora nos dias de hoje sejam raros os casos de ocorrências monolíngües a SIL entende, baseada em estudos científicos, que a aprendizagem ocorre mais rápida através de um sistema lingüístico conhecido do que um desconhecido ou pouco dominado. Os adultos assumem a responsabilidade de transferir os conhecimentos a quem irá ensinar as crianças; e os jovens estarão recebendo o aprendizado de membros adultos da comunidade, dentro da estrutura formal daquela sociedade, preservados os princípios de hierarquia e autoridade com que seus membros foram formados.

Leia a história sobre como os kaingang aprenderam a ler. Esta história mostra os conceitos fundamentais do trabalho da SIL na área de educação indígena.

Educação informal

A participação da SIL na educação informal na língua indígena implica em:

Educação formal, bilíngüe-intercultural

Nas palavras de Beltran, um educador Mexicano:

"Não há um processo mais adequado
do que o ensino bilíngüe-bicultural
para alcançar resultados duráveis."

É imprescindível que a escola seja um fator de convergência entre a educação tradicional e a educação não-tradicional. A orientação sugerida pelo Departamento de Educação Intercultural da SIL é para uma educação laica, ou seja, sem qualquer vínculo ou conotação religiosa. Desde a década de 70, a SIL trabalha por uma metodologia educacional específica, bilíngüe e bicultural (hoje chamada "intercultural"); e sua experiência demonstra ser este o melhor caminho de um povo para a consolidação de sua autonomia cultural.

O ensino escolar formal é de responsabilidade do governo, em seus três níveis. Na Constituição Federal, no parágrafo 2° de seu artigo 21, lê-se que "O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem.". Assim está garantido o direito das sociedades indígenas a uma "educação escolar diferenciada, específica, intercultural e bilíngüe" como estabelecido nas "Diretrizes para a Política Nacional de Educação Escolar Indígenas", (MEC, 2a. edição, 1994).

A filosofia educacional praticada pela SIL está firmemente baseada no conceito de que onde há barreiras lingüísticas a alfabetização deve ser realizada na língua materna do grupo. Esta é a viga mestra de sua atuação educacional, que está alicerçada em muitos anos de experiência com as mais variadas etnias brasileiras. O desenvolvimento de habilidade na língua materna é essencial para o processo cognitivo em geral e como base para o aprendizado de uma segunda língua. Veja, por exemplo "Um bom começo basta?", uma comunicação apresentada na UNICAMP em Campinas, sobre educação bilíngüe entre os Terena.

A SIL tem freqüentemente colaborado com organizações governamentais na formação específica, inicial e continuada, de professores indígenas com especial ênfase no uso de material didático permanentemente elaborado na língua materna por eles, seus alunos e outros membros da sua comunidade. É necessário que estes professores realizem o ensino interdisciplinar em perfeita harmonia com seus padrões culturais e de organização social aproveitando o máximo dos próprios processos de ensino e aprendizagem do seu povo.

O trabalho pressupõe, também, assessoramento e apoio constantes durante os períodos de estágio para o aprofundamento de técnicas pedagógicas tão singulares.

Além do monitoramento compartilhado das práticas de ensino é importante que se promova a atualização dos professores indígenas com eles, debatendo e aperfeiçoando um conteúdo curricular específico e contextualizado, um calendário escolar próprio e uma análise crítica construtiva das experiências em salas de aulas. O "Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas", publicado pelo MEC em 1998, ajudará os professores a continuarem construindo seus currículos interdisciplinares conforme as necessidades dos alunos, nos vários ciclos da sua própria escola.

Modelo de manutenção da língua materna na Escola Indígena

Vale a pena ressaltar que a escola indígena deve sempre levar o aluno a valorizar e conservar sua própria cultura (veja Diferenças entre termos númericos em algumas línguas indígenas do Brasil) e a manter o uso da sua língua materna nas três modalidades, oral, escrita e literária, enquanto a língua portuguesa está sendo aprendida e desenvolvida. Assim, o aluno e o ambiente escolar serão enriquecidos cultural e lingüisticamente. O objetivo é que o aluno desenvolva sua capacidade bicognitiva para o biletramento funcional com a fluência oral e escrita nas duas línguas, em todas as áreas de aprendizagem, assim colocando a língua materna em pé de igualdade com a língua oficial.

   As Mulheres e a Alfabetização

Dentre os 860 milhões de adultos analfabetos que vivem no mundo moderno, mais da terça parte são mulheres. Por isso, a alfabetização funcional de mulheres torna-se uma tarefa prioritária na causa de combater o analfabetismo em escala mundial.

Quase sempre, as mulheres ficam em desvantagem em comparação aos homens porque as famílias não acham relevante que a mulher estude. Às vezes, as pressões econômicas são fatores determinantes para que apenas os filhos tenham o privilégio de frequentar a escola. Devido aos papéis tradicionais desempenhados pelas mulheres adultas, (por exemplo: tomar conta da família), ou aos novos papéis que lhes são atribuídos, (por exemplo: fazer e vender artesenato), pouco tempo e disposição lhes restam a fim de que alcancem uma escolaridade formal. 

No entanto, pesquisas feitas pelas Nações Unidas, em 46 países, comprovam que:

  • o aumento de 1% na taxa de alfabetização de mulheres assegura três vezes mais a diminuição da mortalidade infantil do que o aumento de 1% de médicos atuantes;
  • se as mulheres tiverem uma escolaridade com a duração de 4 a 6 anos, a taxa de mortalidade infantil diminuirá em até 20%.

A Sociedade Internacional de Lingüística também considera a alfabetização fator imprescindível para o desenvolvimento do potencial lingüístico de quaisquer povos e suas línguas maternas. Assim sendo, em mais de setenta países ao redor do mundo, a SIL já implantou cursos de alfabetização, coordenou projetos de capacitação para professores e publicou pesquisas sobre estes projetos científico-culturais e científico-educacionais.

As narrativas que seguem relatam experiências fascinantes vividas por mulheres admiráveis e que foram agraciadas pela aprendizagem da leitura. E, assim, puderam ajudar a transformar outras vidas. À semelhança das carregadoras d'água, que trazem refrigério e vida às próprias famílias, estas mulheres alfabetizadas trouxeram a esperança para suas comunidades e países.

   Língua Materna e Alfabetização

A UNESCO, em documento intitulado “Educação em um Mundo Multilingüe”, (2003), defende o princípio de que a alfabetização deve ser feita na língua materna do aprendiz, por ser este príncípio um fator vital que contribui para o melhoramento e qualidade da instrução. Constam do referido documento as seguintes orientações:

  • O uso da língua materna é indispensável para a aprendizagem inicial e alfabetização, devendo ser prolongado ao máximo dentro do processo educativo.
  • A sustentabilidade da alfabetização só é viável caso exista uma quantidade suficiente de materiais disponíveis que atenderá aos adultos, adolescentes e crianças em idade escolar. Esses materiais devem abranger assuntos de instrução e lazer.
  • Referente à capacitação de professores e ao uso da língua materna o documento diz: “Todo planejamento educacional deve incluir, em cada etapa, a capacitação de uma quantidade suficiente de professores, falantes nativos da língua materna, e que virão a ser competentes e qualificados para ensinar nesta língua.”

   Etapas Essenciais da Alfabetização

  • Avaliar as Expectativas Comunitárias
  • Analisar as Línguas
  • Planejar Programas Educacionais
  • Supervisionar Professores
  • Elaborar Materiais Didáticos
  • Capacitar Professores
  • Ensinar os Alunos
  • Produzir Literatura
  • Avaliar Projetos Educacionais

Um projeto de alfabetização bem-sucedido consiste no cumprimento de etapas essenciais que exigem a participação de líderes locais desde o seu início até a sua conclusão. O processo dinâmico -- que estabelece um alfabeto e capacita professores falantes nativos das línguas maternas -- atinge o seu climax com a ajuda de uma infra-estrutura local que garante a sustentabilidade na produção de materiais didáticos e textos de leitura.

Cada etapa envolve especialistas em alfabetização que atuam em parceria com os líderes comunitários, instituições e agências nacionais, a fim de formar um núcleo de professores e pessoas alfabetizadas.

O estágio mais gratificante é quando começa a produção de literatura básica cujos autores são pessoas da comunidade local. Os assuntos que esta literatura poderia abranger são os seguintes: saúde, agricultura, economia e folclore locais, e assuntos de alto valor moral/cultural. (Demais informações sobre a participação da Sociedade Internacional de Lingüística em projetos de alfabetização encontram-se no site http://www.sil.org/literacy).

http://www.sil.org/americas/brasil/porteduc.htm
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