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A
língua Pirahã desafia a
aplicação
simplista da teoria de Hockett (1960) – quase universalmente
aceita – sobre os
‘traços básicos da linguagem
humana’, pois mostra que alguns destes traços
(permutabilidade, deslocamento e produtividade) podem ser culturalmente
constrangidos. Nota-se, em particular, que a cultura Pirahã
restringe a
comunicação verbal ao âmbito de
assuntos não-abstratos que cabem dentro da
experiência imediata dos interlocutores.
Tal constrangimento explica algumas
caraterística bem surpreendentes da gramática e
cultura dos Pirahã, quais sejam:<
(i) a
ausência de ficção e de mitos de origem;
(ii) o sistema
de parentesco mais rudimentar já documentado;
(iii) a
ausência de números e de qualquer conceito de
contagem;
(iv) a
ausência de termos referentes a cores;
(v) a
ausência de qualquer encaixamento gramatical;
(vi) a
ausência de ‘tempos relativos’;
(vii) o
emprêstimo do inventário pronominal inteiro da
família
lingüística Tupi;
(viii) o fato de
serem monolíngües os Pirahã
após mais de 200 anos
de contato relativamente constante com brasileiros e com falantes da
língua Kawahiva, da familia
lingüistica Tupi-Guarani;
(ix) a
ausência de qualquer memória
individual ou coletiva que remonte a mais de duas
gerações passadas;
(x) a
ausência de desenhos e de outras artes plásticas,
sendo a cultura material dos
Pirahã uma das mais elementares já documentadas;
(xi) a
ausência de qualquer termo de
quantificação, p.ex.,
‘todos’, ‘cada’, ‘a
maioria’, ‘alguns’, etc.
Para mais informações, veja Cultural Constraints
on Grammar and Cognition in Pirahã (em
inglês; reproduzido aqui com a permissão do autor).
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